
Hoje foi um dia bastante nostálgico para mim...
Dia em que recordei tantas coisas boas como coisas ruins. Das coisas ruins, não quero falar. Prefiro mantê-las no silêncio da minha alma, trancadas nas gavetas do meu coração. Das boas, falo porque são essas memórias as únicas coisas que presentemente me fazem sorrir.
Toda esta nostalgia começou ontem à noite, quando conversava com a minha mãe sobre os nossos pais e dos seus respectivos gostos gerais.
Como que por magia, lembrei-me de um pequeno episódio que se passou quando não muito faltava para que eu completasse 3 anos. Esse "episódio" passou-se no início do outono de 1989. Fui com os meus pais e com o meu irmão fazer as compras do mês quando passámos por uma loja de equipamento e instrumentos musicais. O meu pai, que havia sido músico e como era um fanático por tudo sobre o assunto, parecia que tinha a minha idade. Os seus olhos brilhavam com uma inocência admirável ao ver todos aqueles instrumentos reluzentes. Eu, que já começava a ser bem influenciada pelo papá, também estava em pulgas para lá entrar e mexer em tudo o que pudesse. No entanto, a minha mãe, que tinha o meu irmão de mão dada com ela, virou-se para o meu pai e disse: "Vitor, tu ficas aqui com a Laila e não vão para lado nenhum. Vou fazer as compras e vou levar o Uli comigo. Quando voltar, quero-vos aqui à porta, entendido?". O meu pai, como uma criança obediente, acenou que sim com a cabeça, olhou para mim e sorriu. Os seus olhos me diziam: "Prepara-te para entrar no paraíso, minha princesinha!". Entrámos na loja (infelizmente, não me recordo do seu nome) e o meu pai baixou-se e "apresentou-me" as maravilhas que lá dentro estavam. "Olha Lailinha, aquelas coisas ali, são guitarras. Ali ao fundo, são os baixos. Sei que são parecidos mas vou explicar-te já a diferença. Ali do outro lado, estão as baterias e aqui estão as mesas de mistura e equalizadores.". Sinceramente, na altura, não percebi nadinha do que ele havia dito mas, para mim, era tudo mesmo maravilhoso. O rapaz que trabalhava na loja dirigiu-se a nós e perguntou ao meu pai se ele precisava de ajuda. Lembro-me vivamente do meu pai lhe dizer "Meu jovem, de momento não viemos comprar nada mas será que você se importava de fazer duas crianças felizes por breves momentos??". O rapaz, confuso, respondeu "Duas?? Mas vejo apenas a sua pequena!!". Em seguida, disse o meu pai "Sim, duas. A pequena e eu! Afinal, todos temos uma criança dentro de nós, não é verdade?". O rapaz concordou e riu-se com o que o meu pai havia dito.
O meu pai conduziu-me ao corredor onde estavam as guitarras e os baixos. Pusemo-nos estrategicamente a meio e o meu pai começou a explicar-me a diferença ente um e outro instrumento. Naquele momento, ouvia atentamente cada palavra do meu pai e olhava maravilhada para as Gibson, Fender, Paul Reed Smith, etc... (hoje sei as marcas, na altura, era tudo igual). Tudo o que me passava pela cabeça era poder ter tamanho para agarrar numa coisa daquelas e fazer barulho, tal como os meus ídolos faziam (sim, como diz o outro, "de pequenino é que se torce o pepino". O rock está nas veias desde o berço). O meu pai agarrou numa linda Gibson Les Paul Ace Frehley e começou a dar uns acordes. Parecia um sonho! não muito tempo depois, pegou-me no colo, dirigiu-se a uma Tama Master Series e sentou-se no banco mesmo de frente à tarola comigo sentada no seu colo. Após receber a devida autorização para mexer, passou-me um par de baquetas para a mão e comecei a pancadaria nos "tambores" (pois é, ainda não sabia os nomes de tudo aquilo). O rapaz da loja ria-se com as nossas palhaçadas e tapava os ouvidos devido à barulheira que fazíamos. Depois, ainda tive oportunidade de ver o meu pai (tentar) tocar acordeão mas, infelizmente, já tinha perdido o jeito. Então, apareceu a minha mãe no lado de fora da loja, a "estacionar" o carrinho de compras com o meu irmão lá sentado no meio a devorar um chocolate (lembro-me da embalagem ser laranja mas não me lembro qual era). Ela chamou-nos e viemo-nos embora. Eu não queria ir mas também não fiz birra pois sempre fui uma menina bem comportadinha (pelo menos, enquanto criança). A caminho do carro, a minha mãe perguntou ao meu pai: "Então, divertiram-se muito?". O meu pai respondeu-lhe com a seguinte questão: "Mas como sabias que nos estávamos a divertir?". A sua resposta foi bem simples: "Dava para ouvir a euforia infantil la dentro do supermercado!". Então, o meu pai olhou para mim e piscou o olho e eu respondi-lhe com um enorme sorriso de felicidade. Penso que foi nesse dia que a minha paixão pela música verdadeiramente nasceu. Paixão essa que jamais irá morrer, tal como as minhas memórias. Espero um dia, se o destino assim o permitir, poder fazer o mesmo com os meus filhos. Espero também poder contar-lhes "aquelas" histórias para dormir que o meu pai me contava. Também essas histórias são grandes memórias, mas essas ficarão para uma próxima oportunidade.
Pai, onde quer que estejas, sei que olhas por mim e sei que te sentes feliz por esta paixão continuar viva, assim como continuarás sempre vivo dentro do meu coração. Amo-te muito!!!
Fiquem bem & ROCK ON!!!
Laila.
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